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  • Foto do escritorPaulo Markun

Dicas de 1977 - como fazer uma boa entrevista (da Playboy americana)

MANUAL DE ENTREVISTA DA REVISTA PLAYBOY – texto apócrifo, recebido pelo jornalista Paulo Markun ao entrar para o time de Playboy, ao lado de Ruy Castro, como um dos entrevistadores, em 1990. O texto é de 1977 e foi produzido na Playboy norte-americana, ao que tudo indica pelo editor executivo G. Barry Colson. Embora datado, tem boas dicas. REGRAS DA ENTREVISTA


  1. Ser educado

  2. Ser preparado

  3. Ser persistente

  4. Ser profissional

  5. Ser arguto



1- Por exemplo, não fumar se ele/ela não fuma. Suas maneiras no início da entrevista são de longe a coisa mais importante. Tente se concentrar em algo no ambiente que tornará a matéria mais fácil. 2- Uma boa prática é retomar pesquisas do tempo da faculdade, consultar livros. Isso o colocará mais perto do tema tanto quanto possível. 3- Nunca aborde o assunto sem antes ter feito sua lição de casa (pesquisa e leitura), assim será possível para você preparar perguntas não convencionais (você poderá complementar isso mais tarde, por si mesmo). 4- Seja muito profissional, nunca seja desleixado. Você está lá para obter uma boa história. Use sempre um gravador, mas faça isso de modo a dar a impressão de que sua intenção é ser absolutamente preciso. Profissionalismo também significa: quando você não tem um gravador e está tomando notas, não hesite em interromper para escrever datas, nomes, etc. O entrevistado perceberá que você é cuidadoso o suficiente para querer que ele repita informações porque você deseja precisão total. Pergunte e pergunte novamente. Enquanto estiver gravando, você também deve tomar nota das reações físicas do entrevistado, detalhes, cores, o ambiente ao seu redor - descreva os lustres, as flores, todos os detalhes não verbais, que serão de grande ajuda quando começar a escrever sua história. 5- Não reaja abruptamente a uma resposta ou declaração. Sempre mantenha um comportamento não desafiante, mas seja persistente. Saiba exatamente o que você procura: a. informação

b. ideias

Nada mais que isso. Não seja simplório, mantenha o entrevistado no caminho certo, não se perca e, acima de tudo, não argumente! Use o SILÊNCIO. Você logo perceberá que 99% dos entrevistados são vítimas - quando se deparam com um silêncio inesperado, têm um desejo compulsivo de preencher esse silêncio com o som (sua voz). Tente sempre obter anedotas, pequenas histórias sobre a história - elas são o que faz o "READER'S DIGEST" ser tão lido. Suas histórias são sempre cheias de anedotas. Use QUANDO sempre que possível - dê ao entrevistado uma referência no tempo ("em 1947, de acordo com a revista Time, você disse..."). MUITO IMPORTANTE: se você gravou a entrevista, SEMPRE ouça toda a fita assim que voltar ao escritório/casa, para verificar se tudo está claro e OK. Pois, se não estiver, se sua fita falhou, ou barulhos estranhos tornaram alguma passagem impossível de ser transcrita, você poderá imediatamente telefonar ao entrevistado para verificar, reconfirmar.

COLSON (G. Barry Colson, editor executivo da revista, que selecionou as melhores entrevistas e as publicou em livro) 

: "A entrevista da Playboy é a melhor de todas as entrevistas". Sua maior vantagem é o tempo que eles têm para obter uma entrevista: Barbra Streisand levou 6 meses. Ufologia levou um ano. Decidiram sobre ele quando ouviram pela primeira vez algo sobre o filme STAR WARS. JIMMY CARTER: Cinco meses. Normalmente, eles têm 3 meses para fazer uma entrevista. Antes de considerar uma entrevista, quero ter pelo menos 160 a 200 perguntas. Eu nunca começo uma entrevista sem este trabalho prévio. Isso não significa necessariamente que usarei todas estas perguntas; quando tudo vai bem, você as usa apenas como material de referência, pois muitas vezes a conversa com o entrevistado vai por si só. Entretanto, você DEVE estar o mais preparado possível. Edição: Geralmente não admitimos isso, mas uma vez transcrita a entrevista, cerca de 50% das entrevistas precisam ser editadas para fazer sentido, principalmente porque a maioria das conversas não é para ser publicada, mas está em seu talento saber exatamente quando editar - traduzir com o seu ouvido o que vê no papel, e assim falar. Desta maneira, se você quer que a entrevista seja legível, desdobre-a, resuma-a, junte trechos dela, pois você precisa colocá-la em ordem cronológica, o que quase nunca acontece durante uma entrevista, e então você terá tudo nos devidos lugares. A maior vantagem da Playboy: Proporciona aos seus escritores as condições de que precisam, tempo e dinheiro, de modo que eles possam persistir tanto quanto as pessoas estiverem dispostas a nos dar tempo. Dessa forma, nós vamos e voltamos várias vezes.” Regras Básicas: “A Playboy nunca faria uma entrevista sem gravá-la, principalmente porque, às vezes, quando você quer confirmar algo, as pessoas mudam de ideia. Dessa forma, antes de começar a gravação, discuta suas regras básicas - ninguém gosta da forma como aparecem quando o material é publicado. A melhor atitude (da Playboy): Ser sério, sem compaixão. Você não pode proteger o entrevistado se quiser ser um bom jornalista. Mas você tem uma obrigação: Você pode remendar, polir, cortar, editar, mas você deve sempre ser preciso. Tudo deve ser preciso, você NÃO PODE CHUTAR. ORIANA FALLACCI: A Playboy acredita que, por ela não usar um gravador, sempre tem uma grande parte do seu material recusado e isso naturalmente traz muitas desvantagens: você não tem nada para protegê-lo! PLAYBOY: Nós descartamos as duas primeiras horas de fita, sabemos que elas são apenas um aquecimento. De qualquer forma, isso nos deixa com 8 a 60 horas de entrevista gravada. UMA BOA ENTREVISTA: Perguntas que esclarecem, corrigem, explicam o que outras entrevistas já perguntaram - não se trata tanto de boas perguntas, mas sim de boas respostas. Portanto, faça perguntas difíceis! BARBARA WALTERS: Muita gente acredita que ela é uma boa entrevistadora porque sempre faz perguntas difíceis. No entanto, acreditamos que suas perguntas são ofuscadas pela sua forte personalidade. ENTREVISTAS EM GRUPO: A Playboy não acredita em entrevistas em grupo, as fitas são quase sempre impossíveis de serem lidas/transcritas, eles simplesmente não trabalham com isso”. BRADY (Frank Brady, ex-editor de Playboy) : Decidiu não incluir um capítulo em seu livro sobre entrevistas em grupo, pois ele também não acredita nelas - "não há intimidade, o entrevistado fica demasiadamente intimidado por seis ou oito vozes diferentes chegando até ele ao mesmo tempo (às vezes duas ou três ou mesmo quatro ao mesmo tempo!) além disso - e isso é ainda mais sério - aquilo se torna mais um teatro do que uma entrevista, os entrevistados tentam impressionar os outros entrevistados, e assim todo o processo se torna um pesadelo e eu acabo me distanciando deles".

Colson acrescentou que, pessoalmente, achava imoral que mais de duas pessoas se juntem para uma entrevista.

Além disso, eu concordo com o aspecto SILÊNCIO – isso pode ser a ferramenta mais efetiva para que ele/ela se sinta compelido a preencher aquele espaço.

Porque o estilo PERGUNTA & RESPOSTA é tão popular, hoje em dia, nas revistas americanas? Primeiro, porque o Playboy fez este estilo popular. Segundo, porque existe alguma coisa inesperada numa boa entrevista P&R, o mundo se cansou das opiniões de Norman Mailer e de Truman Capote sobre um assunto, suas fantasias se comprovaram como altamente interpretativas e portanto, falhas em credibilidade.


25/11/77.

PS. Fiz a revisão do OCR no Chatgpt e ele acrescentou os seguintes parágrafos que não são do texto original, mas que ajudam. Faça com que o entrevistado sinta que você não é contra ele, mas que você está simplesmente apresentando o que o público pensa. PLAYBOY: Fazer perguntas difíceis requer muita habilidade. Você tem que ser capaz de perguntar sobre assuntos delicados de maneira apropriada, de modo que o entrevistado não se sinta atacado ou na defensiva. Isso pode requerer diplomacia, tacto e um pouco de sutileza. LEMBRE-SE: Você não é o inimigo do entrevistado. Você está lá para obter uma história, não para ganhar uma discussão. Evite ser combativo ou argumentativo. Em vez disso, tente encorajar o entrevistado a compartilhar suas ideias e perspectivas. Finalmente, lembre-se de que a entrevista não é sobre você. Você está lá para ajudar o entrevistado a contar sua história, não para promover suas próprias ideias ou agenda. Mantenha o foco no entrevistado e no assunto em questão.


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