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  • Foto do escritorPaulo Markun

TV pública e TV estatal com Hugo Chávez

Revendo os programas que fiz em dez anos do Roda VIva encontrei um rápido embate com o então presidente da Venezuela, Hug CHávez, que entrevistamos em Brasília. Conseguir a entrevista foi um perereco -- dei sorte de furar o bloqueio dos seguranças e assessores. No centro do Roda, Chávez mostrou ser bom de briga (verbal, pelo menos). Aqui, nosso curto embate sobre o papel da TV, a partir de uma pergunta feita por Beth Carvalho.

Paulo Markun: Presidente, a pergunta agora é da cantora Beth Carvalho.


[Exibição da gravação com Beth Carvalho]


Beth Carvalho: Bom, em primeiro lugar, eu quero dizer que é um prazer muito grande lhe fazer uma pergunta, presidente Chávez, pois lhe admiro muito. Presidente, o senhor tem denunciado constantemente o colonialismo informativo cultural e tem proposto ações concretas para que a integração soberana dos povos do sul do continente não deixem de lado a sua integração comunicacional. E é por isso que surgiu a Telesul. Outra ação importante foi a que o governo Lula fez recentemente, que é o ensino obrigatório do espanhol nas escolas de nível médio no Brasil. A pergunta é: como que o senhor crê que a Telesul pode atuar para apagar essa imensa dívida informativo-cultural que se avolumou contra os povos explorados, para que nós possamos finalmente conhecer a nossa música, o nosso cinema, as nossas histórias, as nossas lendas infantis, a nossa dança, a nossa culinária, para que a informação e a cultura sejam instrumentos realmente de libertação?


Hugo Chávez: [Chávez manda um beijo em direção à câmera]. Beth, te adoro. Lembra aquela viagem pela Mangueira? É uma lembrança... e milhões de beijos! Veja, a integração cultural, a Telesul é um esforço, um esforço modesto. A Telesul está no ar já há alguns meses, através da informação, do cinema, do teatro, através da notícia mais profunda, contextualizada, faz um esforço. Faz documentários. Acho que está começando a fazer algum efeito, e por isso tem alguns setores nos atacando. Mas não basta a Telesul, você sabe, Beth. Na Venezuela, nós estamos trabalhando com a Missão Cultura. São grupos de jovens, um exército de jovens, que vão pelos bairros da Venezuela resgatando a memória histórica de cada bairro, de cada aldeia e registrando-a. Existem pessoas que vivem aqui no território e não sabem porque se chama El Manguito. Não sabem de onde vêm. Nossas aldeias estão sem memória. Temos que recuperar a memória. Isso é fundamental para voltarmos a ser nós mesmos. E para essa integração, por meio da cultura, a Telesul ajuda muito. Outro âmbito que deve ajudar em cada país, e deve ser também fonte de integração, são as emissoras comunitárias. Rádio, TV, imprensa, vocês falando com todos os meios de comunicação. Esta emissora. Vocês jornalistas têm muito o que fazer. Eu chamo todos à reflexão, para que coloquemos um grão de areia na recuperação da memória histórica, e para dar um impulso na integração cultural.


Paulo Markun: Mas há sempre um risco, presidente, e eu digo isso com o orgulho de trabalhar na TV Cultura, que é uma TV pública, efetivamente. Há sempre um risco de se confundir o que é público com o que é estatal. O público, em alguns casos - isso acontece - é aquilo que permite a absoluta liberdade, e o estatal é aquilo que se determina, o que um determinado governo, um determinado governante, uma corrente política, acham que é melhor para o seu povo. Não há esse risco nessa proposta de ser uma coisa estatal e não pública?


Hugo Chávez: Não, não! Não existe. E se você, em primeiro lugar, se coloca para avaliar quem está à frente do projeto pode tirar conclusões, não há dirigentes políticos de nenhum partido. Um jornalista uruguaio, bem crítico, criativo, Aram Aharonian, está à frente, como gerente geral deste projeto. E estou certo que jamais se colocarão a serviço de governo algum.

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