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  • Foto do escritorPaulo Markun

Coronavírus vai transformando os 70 anos nos novos 65

A crise do coronavírus pode acelerar uma tendência que estava sendo discutida apenas em círculos especializados e transformar os 70 anos nos novos 65. Nessa linha, Portugal acaba de estabelecer nos 70 a barreira a partir da qual deve haver maiores cuidados. Na Nova Zelândia a primeira-ministra fez o mesmo alerta e a expectativa é de que nos próximos dias, seja adotado algo semelhante no Reino Unido. Várias redes de supermercados inglesas já estão oferecendo um horário específico para quem tem mais de 70 anos fazer as compras – eles também têm prioridade no atendimento online.

Aqui na terrinha, o primeiro-ministro António Costa apelou para que as pessoas com mais de 70 anos se abstenham de sair de casa, a não ser em situações excepcionais como para ir às unidades de saúde ou buscarem serviços essenciais. Costa fez isso calçado no estado de emergência, que lhe permitiria ser mais draconiano, mas essa tem sido a tônica da reação do governo português à pandemia: toma as medidas necessárias, sem exageros e a população tem respondido positivamente, cumprindo as recomendações em larga escala.

O documento preliminar que serviu de base para a reunião do Conselho de Ministros, que a mídia local conseguiu, estabelecia um horário específico para que os mais velhos fossem atendidos em supermercados e farmácias, mas isso não foi adotado. Aqui em Lisboa, estive em filas formadas nas ruas , diante da farmácia e do supermercado, onde quase todos, pacientemente, esperam sua vez para ser atendidos pelo postigo (as farmácias nem abrem a porta) ou para entrar na loja um a um.

Vi apenas um senhor mais velho que eu, possivelmente, no primeiro dia, esbravejando solitário contra a fila, sem que tivesse qualquer apoio dos outros. E olhe que em épocas normais, o único lugar onde encontrei policiais vigiando foi junto ao caixa dos supermercados. Os lisboetas volta e meia batiam boca sobre quem estava na frente na fila ou sobre a propriedade de um bom bacalhau (presenciei diversas vezes essas cenas). Agora, todo mundo parece consciente da gravidade do momento.

Ao manter a turma entre os 65 e os 70 anos fora do grupo mais controlado, Portugal alivia a barra para mais de 619.030 habitantes (são os dados estatísticos de 2018), concentrando sua atenção num grupo que tinha então quase um décimo de toda a população do país: 958.945 habitantes acima dos 70.

Em um discurso à nação no sábado, a primeira-ministra da Nova Zelândia, Jacinda Ardern anunciou um sistema de alerta em quatro estágios para o coronavírus, com o país no nível de alerta dois – é onde a doença está contida, mas os riscos estão aumentando com o aumento de casos.

Ela pediu que qualquer pessoa com mais de 70 anos, com sistema imunológico comprometido e condições respiratórias subjacentes, fique em casa o máximo possível. “Isso significa que precisamos de amigos, familiares e vizinhos para apoiar nossos neozelandeses e pessoas que podem estar neste grupo, fazendo coisas simples como manter contato e deixar comida ou outros suprimentos”, disse Ardern.

A explicação para a linha de corte pode ser encontrada nas estatísticas do Covid 19 na China: na faixa etária entre 60 e 69 anos, a taxa de mortalidade é 3,6% e passa para 8% entre os 70 e os 79 anos, chegando a 14,8% acima dos 80. Considerando toda população analisada, a média de mortalidade é de 2,3%.

Essa linha de corte antecipa o que já se discutia em alguns países: empurrar dos 65 para os 70 anos o início da velhice. No Reino Unido, depois de analisar os dados da população sobre saúde e expectativa de vida para comparar as tendências ao longo do tempo, a equipe do Office of National Statistics chegou a publicar um artigo em sua página na internet que questionava: os 70 anos são os novos 65? O texto apontava o claro aumento da expectativa de vida e das condições de saúde dos idosos, sem propor uma mudança efetiva – afinal, não são os estatísticos que fazem as leis. Resta saber o tamanho do estrago que o coronavírus vai fazer entre os mais velhos.

Por outro lado, a Organização Mundial da Saúde alerta que os casos de doenças graves não se restringem aos idosos. “A idéia de que essa é uma doença que causa a morte de idosos, precisamos ter muito, muito cuidado”, disse Mike Ryan, chefe do programa de emergência da OMS. Quase 20% das mortes na Coréia do Sul foram em pessoas com menos de 60 anos. “Esta não é apenas uma doença dos idosos. Não há dúvida de que as pessoas mais jovens e saudáveis experimentam uma doença geral menos grave. Mas um número significativo de adultos saudáveis pode desenvolver uma forma mais grave da doença.”

Moral da história: o mar não está para peixe – sejam velhos ou jovens.

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